domingo, 31 de outubro de 2010

Dia Das bruxas



Conto Original da Cinderela


Pai, mãe e filha eram uma família feliz até que a mãe ficou muito doente. Ela chamou a filha e disse-lhe para plantar uma árvore em seu túmulo, e sempre que precisasse de algo, fosse lá chacoalhar a árvore. Ela plantou e regou com suas lágrimas.Algum tempo depois o pai se casou com outra mulher, que já tinha duas filhas más que apelidaram a menina de Cinderela. A madrasta logo botou a menina para trabalhar como empregada.Um dia, o rei anunciou 3 bailes e Cinderela foi obrigada a ajudar as irmãs a se arrumar para o primeiro baile. Ela não tinha vestido e tinha que separar lentilhas antes que as irmãs voltassem. Depois que elas sairam para o baile, dois pássaros bateram na janela e se ofereceram pra ajudar Cinderela com as lentilhas.No dia seguinte as irmãs contaram do baile para Cinderela (que tinha visto tudo da janela). E na mesma noite, teve outro baile. Dessa vez Cinderela não pôde ir pq teve que separar sementes. Os pássaros novamente a ajudaram.Quando eles acabaram, os pássaros disseram pra ela ir ao túmulo da mãe, ela sacudiu a árvore e ganhou um esplêndido vestido prata com acessórios. Mas ela tinha que voltar antes da meia-noite. Ela voltou pra casa e encontrou uma carruagem com serventes e cavalos para levá-la ao baile.Assim que dançou com ela o príncipe percebeu que ela seria sua esposa. Antes da meia-noite ela voltou para casa.No dia seguinte as irmãs más contaram sobre a misteriosa princesa que dançou com o príncipe. E na mesma noite haveria o 3º baile. Cinderela teve que ficar separando ervilhas e novamente os pássaros a ajudaram e ela chacoalhou a árvore de sua mãe.Dessa vez, Cinderela ganhou um vestido dourado com pedras preciosas e sapatilhas feitas de ouro. O príncipe já a esperava na escadaria e dessa vez fez muitas perguntas à seu respeito.Cinderela quase perdeu o horário e teve que sair correndo, perdeu um dos sapatinhos e ainda perdeu a carona, ficando no meio da rua com suas roupas velhas.O príncipe não a viu, mas encontrou seu sapatinho de ouro e proclamou que se casaria com a pessoa cujo pé coubesse nele.Chegou a vez das irmãs experimentarem. A madrasta as chamou e disse que se o sapatinho não coubesse, elas deveriam usar uma faca e cortar um pedaço de seus pés. A irmã mais velha experimentou e não serviu, então cortou seu calcanhar e o sapatinho serviu. O príncipe já estava levando ela para o castelo quando os pássaros amigos de Cinderela cantaram dizendo que tinha sangue no sapato. O príncipe viu e levou a impostora para casa.Então a segunda irmã experimentou os sapatos e precisou cortar os dedinhos para servir. Novamente o príncipe estava levando ela pro castelo e os pássaros deduraram o sangue.O príncipe voltou para a casa e perguntou se havia outra garota. A madrasta não queria, mas ele a fez chamar Cinderela. O sapatinho serviu e ele reconheceu sua noiva. Eles vão se casar e quando as irmãs vão para assistir, os pássaros bicam seus olhos e elas ficam cegas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Jô Soares

Letras & Linhas: Jô Soares: "TRECHO DE ASSASSINATOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS “O Coruja voltou para casa, com uma sensação de mal-estar. Seu sexto sentido de ..."

Jô Soares




TRECHO DE ASSASSINATOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS


“O Coruja voltou para casa, com uma sensação de mal-estar. Seu sexto sentido de policial dizia-lhe que o visitante incógnito tinha algo a ver com o caso. Foi quando avistou no chão, perto da soleira, um envelope que haviam enfiado por baixo da porta. Não tinha endereço marcado, muito menos remetente. Lembrou-se de que a janela da cozinha dava para a rua lateral e correu para abri-la. Debruçando-se, ainda teve tempo de ver um vulto alto e cabisbaixo, de chapéu e sobretudo pretos, perdendo-se na escuridão da noite.” (p. 48)



Letras & Linhas: Miguel Falabella

Letras & Linhas: Miguel Falabella: "A Partilha Enredo: Após muito tempo afastadas, quatro irmãs se reencontram durante o enterro da mãe, para fazer um levantamento dos bens..."

Miguel Falabella




A Partilha


Enredo:
Após muito tempo afastadas, quatro irmãs se reencontram durante o enterro da mãe, para fazer um levantamento dos bens da família e rediscutir suas próprias vidas. As divergências são inevitáveis, pois elas seguiram caminhos muito diferentes: Selma, a irmã mais conservadora, está casada com um militar e leva uma vida disciplinada na Tijuca; Regina, é liberada, esotérica, não costuma se reprimir e tem uma visão "alto astral" da vida; Lúcia abandonou um casamento convencional e o filho para viver um grande amor em Paris; e Laura, a caçula, revela-se uma intelectual sisuda e surpreende as irmãs com suas opções. Durante o encontro, elas discutem e brigam mas, ao mesmo tempo, relembram os bons tempos passados e descobrem muitas novidades sobre elas mesmas.Vivem intensamente suas afinidades, seus problemas e suas diferenças.
Com argumento simples, a peça se inicia com esse encontro da quatro irmãs. A divisão da herança motiva um mergulho no passado e uma discussão sobre os episódios retidos na memória de cada uma. O conflito, que as diferencia e divide num jogo competitivo que abre espaço à crueldade, permite que ao final se retome a unidade. A sutil separação entre os sentimentos e sua expressão social faz com que a crítica veja no texto de Falabella uma inspiração tchekhoviana. Em A Partilha, o desejo inalcançável das personagens é a recomposição do passado como uma idéia mítica de felicidade, e ele se desvenda através de um humor cruel. A inegável ação do tempo e sua corrosão sobre as emoções humanas são a fonte de dramaticidade. O humor não é o elemento que norteia os diálogos e a ação - em primeiro lugar está a coerência de cada personagem e suas contradições.




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Millôr Fernandes

Letras & Linhas: Millôr Fernandes: "Poesia Matemática Millôr Fernandes Às folhas tantas do livro matemáticoum Quociente apaixonou-seum dia doidamentepor uma Incógnita.Olhou-a..."

Millôr Fernandes


Poesia Matemática

Millôr Fernandes


Às folhas tantas 
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia 
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide, 
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida 
paralela à dela
até que se encontraram 
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação 
traçando 
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. 
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, 
mais que um lar, 
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade 
integral e diferencial. 
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes 
até aquele dia 
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu 
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos. 
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade. 
Era o triângulo, 
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, 
a mais ordinária. 
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser 
moralidade
como aliás em qualquer 
sociedade.





terça-feira, 26 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Michael Cunninghan

Letras & Linhas: Michael Cunninghan: "As Horas 'Querido Leonard. Encarar a vida pela frente, Sempre encarar a vida pela frente. E vê-la como ela é. Entendê-la, finalmente. E amá..."

Michael Cunninghan


As Horas

"Querido Leonard. Encarar a vida pela frente, Sempre encarar a vida pela frente. E vê-la como ela é. Entendê-la, finalmente. E amá-la do jeito que ela é, e então, deixá-la partir. Leonard. Sempre os anos entre nós. Sempre os anos. Sempre o amor. Sempre as horas".
Michael Cunningham (The Hours)


"Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais".

Michael Cunningham, in "As Horas"



domingo, 24 de outubro de 2010

Artes e Mídia

30 anos do Menino Maluquinho!!!
http://artesnamidia.blogspot.com/p/noticias.html

Letras & Linhas: Pablo Picasso

Letras & Linhas: Pablo Picasso: "Poema de Picasso Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência.Isso inclui idade, peso e altura.Deixa o médico preocupa..."

Pablo Picasso



Poema de Picasso



Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura.
Deixa o médico preocupar-se com eles.
É para isso que ele é pago.
Frequenta, de preferência, amigos alegres.
Os de "baixo astral" põem-te em baixo.
Continua aprendendo...
Aprende mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixes o teu cérebro desocupado.
Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
E o nome do diabo é Alzheimer.

Aprecia coisas simples.
Ri sempre, muito e alto.
Ri até perder o fôlego.
Lágrimas acontecem.
Aguenta, sofre e segue em frente.
A única pessoa que te acompanha a vida toda és tu mesmo.
Mantém-te vivo, enquanto vives!

Rodeia-te daquilo de que gostas:
Família, animais, lembranças, músicas, plantas, um hobby, o que for.
O teu lar é o teu refúgio.
Aproveita a tua saúde;
Se for boa, preserva-a.
Se está instável, melhora-a.
Se está abaixo desse nível, pede ajuda.
Não faças viagens de remorso.
Viaja para a cidade vizinha, para um país estrangeiro, mas não faças
viagens ao passado.
Diz a quem amas, que realmente os amas, em todas as
oportunidades.

E lembra-te sempre que:
A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos momentos
Em que perdeste o fôlego:
De tanto rir...
De surpresa...
De êxtase...
De felicidade...


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Álvares de Azevedo

Letras & Linhas: Álvares de Azevedo: " Bebamos! nem um canto de saudade!Morrem na embriaguez da vida as dores!Que importam sonhos, ilusões desfe..."

Álvares de Azevedo

                                

 Bebamos! nem um canto de saudade!
Morrem na embriaguez da vida as dores!
Que importam sonhos, ilusões desfeitas?
Fenecem como as flores!
José Bonifácio

NOITE NA TAVERNA

SOLFIERI


...Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm — my heart! my heart!
Cain. Byron


— Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença!


— Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. — A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.


Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.


Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a.


A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão.


Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.


Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.


Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.


O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...


Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão...


Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite...


Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. . — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...


Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem cabeça e o homem sem coração" como a conta Brantôme? — Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou…


Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!


A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta .


Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.


— Que levas aí?


A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.


— É minha mulher que vai desmaiada...


— Uma mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?


Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.


— É uma defunta...


Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda.


— Vede, disse eu.


O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...


— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.


Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço.


Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...


Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.


Fechei a moça no meu quarto, e abri.


Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.


Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.


Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.


A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.


Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.


Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...


— Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?


— E quem era essa mulher, Solfieri?


— Quem era? seu nome?


— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?


Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.


— Solfieri, não é um conto isso tudo?


— Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!


Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.


—Vede-la murcha e seca como o crânio dela!

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Stephen King

Letras & Linhas: Stephen King: "Quase metade dos contos abaixo já foram adaptados para a tela do cinema: Jerusalem’s Lot (Jerusalem’s Lot): Esta História se passa em ..."

Stephen King




Quase metade dos contos abaixo já foram adaptados para a tela do cinema:


Jerusalem’s Lot (Jerusalem’s Lot): Esta História  se passa em 1850 e conta a história de um homem e seu criado que vão morar em uma casa bastante estranha na pequena cidade de Chapelwaite. Lá eles encontrarão um mapa que levará a uma cidade fantasma chamada Jerusalem`s Lot, e depois que eles resolvem fazer uma visitinha a esta cidade suas vidas se transformam para sempre.


Turno do Cemitério (Graveyard Shift): Alguns funcionários de uma empresa têxtil resolvem descer os porões da antiga fábrica para fazer uma limpeza e ganhar um dinheirinho extra, porém, o que eles encontraram lá em baixo além de muita sujeira é um ser bizarro e não deixará ninguém voltar para cima.


Espuma Noturna (Night Surf): Este pequeno conto é apenas uma introdução ao Livro A Dança da Morte que posteriormente seria lançado por King. A História é sobre um grupo de jovens sobreviventes de uma peste que dizimou os seres humanos, e que estão em uma casa discutindo sobre o futuro, se é que haverá futuro.


Eu Sou o Umbral da Porta (I am the Doorway): Neste perturbador conto de horror King conta a história de Arthur um astronauta, que retorna de uma missão em Vênus “infectado” por criaturas que andam debaixo de sua pele, de seus dedos e que desenvolvem olhos em seu corpo por onde enxergam nosso mundo. Bizarro!


A Máquina de Passar Roupa (The Mangler): Uma história que resumida é mais que  absurda : Uma máquina de passar roupa industrial após um acidente em que uma mulher morre em suas engrenagens passa a ter vida própria e a fazer novas vítimas. Acredite, King fez um excelente conto de terror e que de fato assusta.


O Fantasma (The Boogeyman): Um Homem visivelmente perturbado chamado Lester Billings chega a um psiquiatra e começa a contar o motivo de sua agitação. Lester está convencido de que um fantasma matou seus três filhos, mas que ele próprio, o pai, era o único responsável pelas mortes. Por quê? Porque ele sempre soube da existência do fantasma e nunca fez nada para protegê-los. King novamente se supera.


Matéria Cinzenta (Gray Matter): Mais um Clássico de Horror: Um homem bebe uma lata de cerveja estragada e se transforma em uma criatura enorme que devora gatos mortos e dobra de tamanho regularmente. Considerado por muitos, um dos melhores contos curtos de horror já feitos por King.


Campo de Batalha (Battleground): Alguns “Brinquedinhos” tomam vida e se vingam de um assassino da maneira mais cruel possível. Um dos contos mais fracos.


Caminhões (Trucks): Alguns caminhões passam a ter vida própria e encurralam um grupo de pessoas em um posto de gasolina. Mais tarde as pessoas encurraladas descobrem que não só os caminhões estão andando sozinhos, mas outras “maquinas” também. Mais um conto em que King não dá expectativa de esperança nenhuma a humanidade. Ele é especialista nisso.


Às Vezes Eles Voltam (Sometimes They Come Back): Um professor chamado Jim Norman passa a relembrar seus traumas de infância quando começam a chegar alguns alunos novos em sua classe e que pretendem atormentar a vida de Norman. Outro conto brilhante em que o final é arrasador.


Primavera Vermelha (Strawberry Spring): Um campus universitário é tomado pelo medo por uma seqüência de mortes que vem acontecendo no mesmo. O pior é que todos são suspeitos e ao mesmo tempo ninguém é suspeito.


O Ressalto (The Ledge): Um milionário traído resolve fazer o amante de sua mulher sofrer os últimos minutos de vida que lhe restam, mas alguma coisa dá errado e seu dinheiro em nada lhe ajudará para sair com vida deste jogo de perversidade.


O Homem do Cortador de Grama (The Lawnmower Man): Um homem contrata um jardineiro um pouco estranho demais para cortar sua grama. O Jardineiro com seus métodos pouco ortodoxos de cortar grama fará o homem se arrepender pra sempre de tê-lo contratado.


Ex-Fumantes, Ltda. (Quitters, Inc.): A Ex-Fumantes, Ltda. é uma organização que garante que você irá parar de fumar se procurá-los. Porém os métodos utilizados não são bem explicados e infelizmente é tarde demais pra voltar atrás, não é RICHARD MORRISON? Outro conto magnífico.


Sei o que Você Precisa (I Know What You Need): Um sujeito bastante estranho chamado Edward Hammer parece sempre saber oque Elizabeth precisa. Para Elizabeth ele é um homem perfeito. Pobre Elizabeth quando descobrir os segredos deste homem ideal.


As Crianças do Milharal (Children Of The Corn): Um jovem casal resolve fazer uma longa viagem de carro, mas ao passarem por uma cidadezinha chamada Gatlin, e notarem que seus habitantes não possuem mais de 19 anos de idade, eles descobrem que alguma coisa de errado está acontecendo por ali. Os Jovens são adoradores de uma entidade demoníaca que habita um milharal.


O Último Degrau da Escada (The Last Rung on The Ladder): Este conto é um dos mais bonitos da carreira de King e narra a relação de amor entre os irmãos Larry e Katrina em sua infância, e preço que Larry, já adulto, pagou por não estar presente com sua irmã durante toda a vida.


O Homem que Adorava Flores (The Man Who Loved Flowers): Um jovem aparentemente inofensivo e apaixonado vaga pelas ruas com um buquê de flores em suas mãos. Nada mais romântico não é? Não! Não é!


A Saideira (One For The Road): Mais uma vez Jerusalem`s Lot, é o cenário de situações macabras, e desta vez dois homens presenciaram cenas que ficaram eternizadas em suas memórias (caso eles saiam vivos dali, é claro!).


A Mulher do Quarto (The Woman In The Room): Este conto que fala sobre eutanásia, narra a dolorosa decisão de um filho em dar um basta no sofrimento pelo qual passa sua mãe que está num leito de hospital. Um conto muito triste e que é narrado de forma magistral por King.


As Quatro Estações (Stephen King): 
Abordando cada uma das estações do ano com uma estória envolvente e 
cativante, o mestre King consegue, através da sua capacidade de moldar 
a imaginação das pessoas, nos levar a cada uma das situações criadas 
nesse bestseller de 1983. 


À primeira vista, o leitor irá sentir uma grande diferença das outras 
obras de Stephen, e não é para menos: o escritor surpreende a todos com 
histórias que fogem ao estereótipo de terror 'bizarro', exceto talvez 
pelo conto "Inverno no Clube - Método respiratório", onde lemos sobre 
um clube onde são contadas as mais bizarras e inusitadas histórias de 
seus participantes. Ainda falando sobre um lado mais psicológico, 
encontramos o conto "Verão da Corrupção", quando King nos conduz de 
encontro à um antigo militar do Reich, que passa a ser refém de suas 
lembranças ao ser reconhecido por um jovem estudante. 


Para aquecer os corações, o conto 'Primavera Eterna' é como um cobertor 
elétrico. É possível manter seus sonhos dentro de uma prisão? Assim 
como 'A espera de um milagre', King mostra ser um bom conhecedor da 
psique de um presidiário, e isso é transmitido 100% ao leitor. Esse 
conto deu origem ao filme 'Um sonho de liberdade' que, fiel ao livro, 
não poderia ser um filme ruim. 


E por último, 'Outono da Inocência - O Corpo'. Um conto sobre a amizade 
de um grupo de crianças em uma cidadezinha americana, onde é tratado 
sobre sonhos, perspectivas, amizades e maturidade. É outro exemplo de 
uma excelente adaptação para o cinema, chamada 'Conta comigo".

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Stephen King

Letras & Linhas: Stephen King: "Mestre dos Contos de Horror Stephen Edwin King (Portland, 21 de setembro de 1947) é um escritor estadunidense, reconhecido como um dos..."

Stephen King





Mestre dos Contos de Horror



Stephen Edwin King (Portland, 21 de setembro de 1947) é um escritor estadunidense, reconhecido como um dos mais notáveis escritores de contos de horror fantástico e ficção de sua geração. Seus livros foram publicados em mais de 40 países e muitas das suas obras foram adaptadas para o cinema.
Embora seu talento se destaque na literatura de terror/horror, escreveu algumas obras de qualidade reconhecida fora desse gênero e cuja popularidade aumentou ao serem levadas ao cinema, como nos filmes Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade (contos retirados do livro As Quatro Estações), Eclipse Total, Lembranças de um Verão e À Espera de um Milagre .
O seu livro The Dead Zone originou a série da FOX com o mesmo nome. O próprio King já escreveu roteiros de episódios para séries, como Arquivo X, em que ele escreveu o roteiro do episódio "Feitiço", da quinta temporada.


Here There Be Tigers

"Here There Be Tygers" é uma curta história de Stephen King, primeiramente publicada pelas "Ubris Magazine" em 1968 e re-publicada no livro de contos Skeleton Crew. Esta história é extremamente curta, e foi escrita na perspectiva de um garoto, Charles, que acredita que há um tigre se escondendo no banheiro. Entretanto, o tigre atacou Kenny Griffen e também a Senhorita Bird, a professora.
O título se refere a frases usadas pelos cartógrafos medievais quando eles colocam avisos em porções inexploradas em seus mapas. A frase foi usada também em uma história de King, tempo mais tarde, chamada "The Reploids". Na versão do filme de "The Dark Half" a história que a mãe de Thedore's olha é essa.
Como Stephen King notificou no prefácio do livro Skeleton Crew, essa é uma das primeiras histórias que King escreveu durante o tempo em que ainda estava no colegial.

A história segue no chamado de  Charles, envergonhado, para ir ao banheiro. Ele realmente precisa ir para 
o banheiro e sua  professora, Miss Bird pergunta se ele tem que ir 
antes que ela lhe permita, envergonhá-lo. ( "Muito bem Charles. Você pode ir 
ao banheiro e urinar. É o que você precisa fazer? Urinar? ") Ele 
chega lá e espreita ao virar da esquina, e vê um tigre deitado no 
pavimento da casa. Ele está à porta, com muito medo de ir dentro Eventualmente um 
filho chamado Kenny Griffen vem buscá-lo. Charles começa a chorar e 
Kenny leva-nos, dizendo que ele fez o tigre acima. Charles escapa para fora 
do banheiro, e quando ele se obriga a voltar para dentro, ele vê a 
Tiger tem um pedaço da camisa rasgada por sua garra. Charles decide aliviar 
se na pia, mas Miss Bird pega. Ela gira em torno da 
canto para encontrar Kenny e Charles deixa o banheiro. Ele retorna ao seu 
sala de aula e começa a ler Roads to Everywhere.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Letras & Linhas: Luís Fernando Veríssimo

Letras & Linhas: Luís Fernando Veríssimo: "Lixo Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.- Bom dia...- Bom dia.- A senhora é do..."

Luís Fernando Veríssimo


Lixo

 Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?