sábado, 30 de abril de 2011

William Shakespeare



Cena IV

O mesmo Uma rua. Entram Romeu, Mercúcio, Benvólio, com cinco ou seis mascarados, portadores de tochas e outras pessoas.
     ROMEU — Por escusas faremos um discurso, ou entramos sem nenhuma apologia?
     BENVÓLIO — Muito falar destoa deste dia. Não precisamos hoje de Cupido com venda sobre os olhos e arco tártaro de ripa multicor, que infunde medo, como espantalho o faz, no mulherio. Não; nem também de prólogo matado, que o ponto diz antes de nossa entrada. Que nos tomem por quem melhor acharem; mediremos com todos alguns passos e, após, saímos.
     ROMEU — Dai-me uma das tochas; não me acho hoje disposto para saltos. Estando enfarruscado, aclaro a estrada.
     MERCÚCIO — Não; tereis de dançar, gentil Romeu.
     ROMEU — Não; podeis crer-me: tendes sapatinhos de sola leve, própria para dança. Eu, tenho alma de chumbo que, prendendo-me à terra, não me deixa dar um passo.
     MERCÚCIO — Sois um apaixonado. Por empréstimo tomai as lestes asas de Cupido, que heis de pairar por sobre a mediania.
     ROMEU — Tão traspassado estou por suas setas que suas lestes asas não conseguem transportar-me para o alto: tão peado, que não posso deixar a dor obscura, sob o fardo do amor gemendo sempre.
     MERCÚCIO — Mas para estar sob ele, é necessário que carregueis o amor, peso excessivo para coisa tão terna.
     ROMEU — Coisa terna julgais que seja o amor? Não; muito dura: dura e brutal, e fere como espinho.
     MERCÚCIO — Se o amor convosco é duro, sede duro também com ele, revidando todas as pancadas que der. Ponde-o no chão. Dai-me uma cobertura para o rosto. Em cima de uma máscara ponho outra. Que me importa que o olhar curioso possa perceber a feiúra? Por mim hão de corar estas salientes sobrancelhas.
     BENVÓLIO — Vamos bater e entrar e, uma vez dentro, que bom uso das pernas todos façam.
     ROMEU — Dai-me uma tocha; que esses rapazolas de leve coração cócegas façam com os sapatos nos juncos insensíveis. Já meu avô dizia sentencioso: seguro a luz e fico a observar tudo. Fora, muita algazarra; eu, triste e mudo.
     MERCÚCIO — Mudo é o rato no charco, diz o guarda. Se mudo te tornares, arrancamos-te do charco – com licença! – de Cupido, onde estás enterrado até às orelhas. Sigamos, que isto é acender luz de dia.
     ROMEU — Não, não é isso.
     MERCÚCIO — Minha alegoria, senhor, indica que, como de dia, gastamos nossa luz inutilmente. Conservai esse dito sempre em mente, que mais saber contém do que, reunidos, todos os nossos cinco ou seis sentidos.
     ROMEU — Sim, é o que faço nesta mascarada; mas é absurdo.
     MERCÚCIO — Por que não vos agrada?
     ROMEU — Tive um sonho esta noite.
     MERCÚCIO — Oh! eu também.
     ROMEU — Sobre quê?
     MERCÚCIO — Sonho algum verdade tem.
     ROMEU — Quando dormimos, tudo neles cabe.
     MERCÚCIO — Oh! Visitou-vos a Rainha Mab.
     BENVÓLIO — Quem é a Rainha Mab?
     MERCÚCIO — É a parteira das fadas, que o tamanho não chega a ter de uma preciosa pedra no dedo indicador de alta pessoa. Viaja sempre puxada por parelha da pequeninos átomos, que pousam de través no nariz dos que dormitam. As longas pernas das aranhas servem-lhe de raios para as rodas; é a capota de asa de gafanhotos; os tirantes, das teias mais sutis; o colarzinho, de úmidos raios do luar prateado. O cabo do chicote é um pé de grilo; o próprio açoite, simples filamento. De cocheiro lhe serve um mosquitinho de casaco cinzento, que não chega nem à metade do pequeno bicho que nos dedos costuma arredondar-se das criadas preguiçosas. O carrinho de casca de avelã vazia, feito foi pelo esquilo ou pelo mestre verme, que desde tempo imemorial o posto mantém de fabricante de carruagens para todas as fadas. Assim posta, noite após noite ela galopa pelo cérebro dos amantes que, então, sonham com coisas amorosas; pelos joelhos dos cortesãos, que com salamaleques a sonhar passam logo; pelos dedos dos advogados, que a sonhar começam com honorários; pelos belos lábios das jovens, que com beijos logo sonham, lábios que Mab, às vezes, irritada, deixa cheios de pústulas, por vê-los com o hálito estragado por confeitos. Por cima do nariz de um palaciano por vezes ela corre, farejando logo ele, em sonhos, um processo gordo. Com o rabinho enrolado de um pequeno leitão de dízimo, ela faz coceiras no nariz do vigário adormecido, que logo sonha com mais um presente. Na nuca de um soldado ela galopa, sonhando este com cortes de pescoço, ciladas, brechas, lâminas de Espanha e copázios bebidos à saúde, de cinco braças de alto. De repente, porém, estoura pelo ouvido dele, que estremece e desperta e, aterrorado, reza uma ou duas vezes e, de novo, põe-se a dormir. É a mesma Rainha Mab que a crina dos cavalos enredada deixa de noite e a cabeleira grácil dos elfos muda em sórdida melena que, destrançada, augura maus eventos. Essa é a bruxa que, estando as raparigas de costas, faz pressão no peito delas, ensinando-as, assim, como mulheres, a agüentar todo o peso dos maridos. É ela, ainda...
     ROMEU — Paz, Mercúcio! Paz!
     MERCÚCIO — Sim, só falo de sonhos, prole ociosa de um cérebro vadio, a qual de nada provém senão da inútil fantasia, que é tão firme como o ar, mais inconstante do que o vento que faz a corte ao frio seio do norte e, sendo repelido, volta de lá bufando e o rosto vira para o sul orvalhoso.
     BENVÓLIO — Pois o vento de que falais nos toca para longe de nós próprios. A ceia está acabada; chegamos muito tarde.
     ROMEU — Oh! muito cedo, tenho receio. Apreende meu espírito algo que ainda pende das estrelas e que vai iniciar seu fatal curso na festa desta noite, pondo termo à vida desprezível que eu carrego no peito, com qualquer delito absurdo de morte extemporânea. Mas Aquele que se acha no timão de minha viagem vai dirigir-me a vela. Adiante, amigos
     BENVÓLIO — Tocai, tambor!
(Saem.)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

William Shakespeare


Romeu e Julieta

Cena III

O mesmo. Um quarto em casa de Capuleto. Entram a senhora Capuleto e a ama.
     SENHORA CAPULETO — Ama, onde está Julieta? Vai chamá-la
     AMA — Por minha virgindade quando eu tinha doze anos: já a chamei. Minha ovelhinha. Vem cá, meu coração! Deus me perdoe, mas onde está a menina? Oh, Julieta!
(Entra Julieta.)
     JULIETA — Que é que houve? Quem me chama?
     AMA — Vossa mãe.
     JULIETA — Senhora, aqui estou eu. Que desejais?
     SENHORA CAPULETO — Eis o assunto... Ama, deixa-nos sozinhas por algum tempo. Tenho de falar-lhe muito em particular. Não, ama: volta! Lembrei-me agora que é preciso que ouças nossa conversa, pois há muito tempo conheces minha filha.
     AMA — É certo, posso dizer que idade tem, hora por hora.
     SENHORA CAPULETO — Tem quatorze anos incompletos.
     AMA — Jogo quatorze de meus dentes – muito embora, para minha aflição, só tenha quatro – em como não fez ainda quatorze anos. Para um de agosto quanto falta ainda?
     SENHORA CAPULETO — Uma quinzena e pouco.
     AMA — Pouco ou muito, não importa. O que é certo é que no dia um de agosto completa quatorze anos. Ela e Susana – Deus ampare as almas cristãs! – eram da mesma idade. Bem; Susana está com Deus. Mas, como disse: na noite de primeiro ela completa quatorze anos. É certo: quatorze anos. Lembro-me bem. Desde o tremor de terra, onze anos se passaram. Desmamada foi nesse tempo; nunca hei de esquecê-lo, pois nos seios passado havia losna, sentada ao sol, embaixo do pombal. Vós e o patrão em Mântua vos acháveis – Oh! que memória a minha! – Mas, como ia dizendo: quando ela sentiu o gosto de losna no mamilo e o achou amargo – coisinha tola! – como ficou brava! como bateu nos seios! Nisso, "Crac!" fez o pombal. Não foi preciso mais para eu mexer-me. Já se passaram, desde então, onze anos. De pé, sozinha, ela já então ficava. Sim, pela Santa Cruz, podia mesmo correr a cambalear por toda a casa, pois no dia anterior ferira a testa. Foi quando meu marido – Deus conserve sempre sua alma! Era de gênio alegre – levantou a menina. "Sim", disse ele, "caís agora de frente? Pois de costas cairás, quando tiveres mais espírito. Não é, Julu?" E, pela Santa Virgem, parando de chorar, a pirralhinha respondeu: "Sim". Uma pilhéria fina verti sempre a tempo. Juro que ainda mesmo que mil anos eu viva, jamais hei de me esquecer do episódio. Perguntou-lhe: "Não é, Julu?" E aquela pirralhinha parando de chorar, respondeu: "Sim".
     SENHORA CAPULETO — Sobre isso, basta. Fica quieta, peço-te.
     AMA — Pois não, senhora; mas não me é possível deixar de rir, ao recordar como ela interrompeu o choro e disse "Sim". No entretanto, crescera-lhe na testa, jurar posso. um calombo grande como testículo de galo. Que pancada! E ela chorava amargamente. "É certo", disse-lhe meu marido; "cais de frente, não é assim? Mas vais cair de costas, quando fores maior. Não é, Julu?" E ela, já sem chorar, respondeu: "Sim".
     JULIETA — Então pára também, ama; é o que peço.
     AMA — Bem, já acabei. Que Deus te tenha em graça. Foste a criança mais linda que eu criei. Se algum dia eu puder ver-te casada, é tudo o que desejo.
     SENHORA CAPULETO — Pois foi para falar em casamento que te chamei. Filha Julieta, dize-me: em que disposição estás para isso?
     JULIETA — É uma honra com a qual jamais sonhei.
     AMA — Honra! Se não tivesses tido apenas uma ama, afirmaria que, com o leite, tinhas mamado juízo.
     SENHORA CAPULETO — Pois estamos na época de pensar em casamento. Mais jovens do que vós, aqui em Verona, senhoras de respeito, já são mães. Se não me engano, vossa mãe tornei-me com a mesma idade em que ainda sois donzela. Para ser breve: o valoroso Páris requesta vosso amor.
     AMA — Que homem, menina! Um homem desses... Não... Em todo o mundo... Só feito de encomenda.
     SENHORA CAPULETO — A primavera de Verona não tem mais bela flor.
     AMA — Sim, uma flor! A verdadeira flor.
     SENHORA CAPULETO — Que dizeis? Sois capaz de amar o jovem? Hoje à noite vê-lo-eis em nossa festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos escritos pela pena da beleza. Examinai-lhe os traços delicados e vede como se acham bem casados. E se no livro achardes algo obscuro, encontrareis nos olhos o esconjuro. Esse manual de amor só necessita de uma capa adequada e bem bonita. Vive no mar o peixe; é muito certo que deva o amor ficar algo encoberto. As letras de ouro da lombada a glória terão em parte da formosa história. Ficareis, pois, com ele associada sem que vos diminuais, com isso, em nada.
     AMA — Oh! não diminuirá. Pelo contrário; as mulheres com os homens sempre aumentam.
     SENHORA CAPULETO — Enfim, que me dizeis do amor de Páris?
     JULIETA — Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista chegar além não há de do que me consentir vossa vontade.
(Entra um criado.)
     CRIADO — Senhora, os hóspedes já chegaram; a comida está na mesa; estais sendo procurada; reclamam a presença da senhorita; na copa amaldiçoam a ama. Tudo está de pernas para o ar. Tenho de voltar para servir. Por obséquio, vinde logo, vinde logo.
     SENHORA CAPULETO — Já te sigo. Julieta, o conde espera.
     AMA — Belas noites te almejo; sou sincera.
(Saem.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Letras & Linhas: Biografias

Letras & Linhas: Biografias: "William Shakespeare Shakespeare é considerado um dos mais importantes dramaturgos e escritores de todos os tempos. Seus textos literár..."

terça-feira, 26 de abril de 2011

Miguel de Cervantes


"A formosura da alma campeia e denuncia-se na inteligência, na honestidade, no recto procedimento, na liberdade e na boa educação."

Letras & Linhas: História da Arte

Letras & Linhas: História da Arte: " A palavra “arte” teve muitos significados durante a história. Sempre houve uma pequena discussão, pois alguns achavam que a arte era uma..."

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fernando Pessoa

          POEMA PIAL
        Toda a gente que tem as mãos frias Deve metê-las dentro das pias.
        Pia número UM Para quem mexe as orelhas em jejum.
        Pia número DOIS, Para quem bebe bifes de bois.
        Pia número TRÊS, Para quem espirra só meia vez.
        Pia número QUATRO, Para quem manda as ventas ao teatro.
        Pia número CINCO, Para quem come a chave do trinco.
        Pia número SEIS, Para quem se penteia com bolos-reis
        Pia número SETE, Para quem canta até que o telhado se derrete.
        Pia número OITO, Para quem parte nozes quando é afoito.
        Pia número NOVE, Para quem se parece com uma couve.
        Pia número DEZ, Para quem cola selos nas unhas dos pés.
        E, como as mãos já não estão frias, Tampa nas pias!

      sexta-feira, 22 de abril de 2011

      Miguel de Cervantes


      (…)
      Em suma, aquela noite passaram-na entre umas árvores; de uma delas desgalhou D. Quixote uma
      das pernadas secas, que lhe podia pouco mais ou menos suprir a lança, e nela pôs o ferro da que se lhe tinha quebrado.
      Em toda a noite não pregou olho, pensando na sua senhora Dulcinéia, para se conformar com o que tinha lido nos seus livros, quando os cavaleiros passavam sem dormir muitas noites nas florestas e despovoados, enlevados na lembrança de suas amadas.
      Já Sancho Pança a não passou do mesmo modo; como levava a barriga cheia (e não de água de
      chicória) levou-a toda de um sono; e se o amo o não chamara, não bastariam para acordá-lo os raios do sol que lhe vieram dar na cara, nem as cantorias das aves, que em grande número saudavam com alvoroço a vinda do novo dia.
      Ao erguer-se, deu mais um beijo na borracha, e achou-a seu tanto mais chata que a noite de antes; com o que se lhe apertou o coração, pensando em que não levavam caminho de se remediar tão depressa aquela falta.
      Não quis D. Quixote desjejuar-se, porque, segundo já dissemos, lhe deu em sustentar-se de
      saborosas memórias. Prosseguiram no seu começado caminho de Porto Lápice, e pela volta das três do dia deram vista dele.
      — Aqui — disse D. Quixote — podemos, Sancho Pança amigo, meter os braços até aos cotovelos
      no que chamam aventuras; mas adverte, que, ainda que me vejas nos maiores perigos do mundo,
      não hás-de meter mão à espada para me defender, salvo se vires que os que me agravam são canalha
      e gente baixa, que nesse caso podes ajudar-me; porém se forem cavaleiros, de modo nenhum te é
      lícito, nem concedido nas leis da cavalaria, que me socorras, enquanto não fores armado cavaleiro.
      — Decerto — respondeu Sancho — que nessa parte há-de Sua Mercê ser pontualmente obedecido,
      e mais, que eu sou de meu natural pacífico, e inimigo de intrometer-me em arruídos e pendências. É verdade, que, no que tocar em defender cá a pessoa, não hei-de fazer muito caso dessas leis, porque as divinas e humanas permitem defender-se cada um de quem lhe queira mal.
      — Não digo menos disso — respondeu D. Quixote — porém no ajudar-me contra cavaleiros hás-de
      ter mão nos teus ímpetos naturais.
      — Afirmo-lhe que assim o farei — respondeu Sancho; — esse preceito hei-de o guardar como os
      dias santos e os domingos.
      Estando nestas práticas, viram vir pelo caminho dois frades da ordem de S. Bento, cavalgando sobre dois dromedários (que não eram mais pequenas as mulas em que vinham). Traziam seus óculos de jornada, e seus guarda-sóis.
      Atrás seguia um coche com quatro ou cinco homens de cavalo, que o acompanhavam, e dois moços de mulas a pé. Vinha no coche, como depois se veio a saber, uma senhora biscainha, que ia a Sevilha, onde estava seu marido, que passava às Índias com um mui honroso cargo. Não vinham os frades com ela, ainda que traziam o mesmo caminho; mas apenas D. Quixote os divisou, quando disse para o escudeiro:
      — Ou me engano, ou esta tem de ser a mais afamada aventura que nunca se viu, porque aqueles vultos negros, que ali aparecem, devem ser alguns encantadores, que levam naquele coche alguma Princesa raptada; e é forçoso, que, a todo o poder que eu possa, desfaça esta violência.
      — Pior será esta, que a dos moinhos de vento — disse Sancho; — repare, meu amo, que são frades
      de S. Bento, e o coche deve ser de alguma gente de passagem; veja, veja bem o que faz, não seja o diabo que o engane.
      — Já te disse, Sancho — respondeu D. Quixote — que sabes pouco das maranhas que muitas vezes
      se dão nas aventuras. O que eu digo é verdade, e agora o verás.
      Dizendo isto, adiantou-se e pôs-se no meio do caminho por onde vinham os frades; e, chegando a
      distância que a ele lhe pareceu o poderiam ouvir, disse em alta voz:
      — Gente endiabrada e descomunal, deixai logo no mesmo instante as altas Princesas que nesse
      coche levais furtadas; quando não, aparelhai-vos para receber depressa a morte, por justo castigo das vossas malfeitorias.
      Detiveram os frades as rédeas, admirados, tanto da figura como dos ditos de D. Quixote, e
      responderam:
      — Senhor cavaleiro, nós outros não somos nem endiabrados nem descomunais; somos dois
      religiosos beneditinos, que vamos nossa jornada; e não sabemos se nesse coche vêm, ou não, algumas Princesas violentadas.
      — Falas mansas cá para mim não pegam — disse D. Quixote — que já vos conheço, fementida
      canalha.
      E sem aguardar mais resposta, picou o Rocinante, e de lança baixa arremeteu com o primeiro frade com tanta fúria e denodo, que, se o frade se não deixasse cair da mula, ele o faria ir a terra contra vontade, e até mal ferido, se não morto.
      O segundo religioso, que viu o que se tinha feito ao companheiro, meteu pernas à sua acastelada mula, e desatou a correr por aquele campo, mais ligeiro que o próprio vento.
      Sancho Pança, que viu por terra o frade, apeou-se do burro com a maior pressa, arremeteu a ele, e começou-lhe a tirar os hábitos. Acudiram dois moços dos frades, e perguntaram-lhe por que o despia. Respondeu-lhes Sancho Pança, que a fatiota lhe pertencia a ele legitimamente, como despojos da batalha, que seu amo D. Quixote havia ganhado. Os moços, que não entendiam de
      xácaras, nem percebiam aquilo de despojos e batalhas, vendo já afastado dali D. Quixote em conversação com as damas do coche, investiram com Sancho, e deram com ele em terra,
      arrancaram-lhe as barbas, moeram-no a coices, e o deixaram estendido como coisa morta.
      O frade caído não se demorou um instante; todo temeroso e acovardado, ergueu-se, montou, e, logo que se viu a cavalo, picou atrás do companheiro, que a bom pedaço dali estava esperando em que pararia aquele ataque.
      Não quiseram esperar mais pelo desfecho, e seguiram o seu caminho, fazendo mais cruzes, que se levassem o diabo atrás de si.
      Estava D. Quixote, como já se disse, falando com a senhora do coche, dizendo-lhe:
      — A Vossa formosura, senhora minha, pode fazer da sua pessoa o que mais lhe apeteça, porque já a soberba de vossos roubadores jaz derribada em terra por este meu forte braço; e para que vos não raleis de não saber o nome do vosso libertador, chamo-me D. Quixote de la Mancha, cavaleiro andante, e cativo da sem par em formosura D. Dulcinéia del Toboso; e em paga do benefício que de mim haveis recebido, nada mais quero senão que volteis a Toboso, e que da minha parte vos apresenteis a ela, e lhe digais o que fiz para vos libertar.
      Tudo que D. Quixote dizia, estava-o escutando um escudeiro dos que acompanhavam o coche, e
      que era biscainho, o qual, vendo que o cavaleiro não queria deixar ir o coche para diante, mas teimava que havia de desandar logo para Toboso, fez frente a D. Quixote, e, agarrando-lhe na lança, lhe disse em mau castelhano e pior biscainho o que pouco mais ou menos vinha a parar nisto:
      — Anda, cavaleiro, que mal andas; pelo Deus que me criou, que, se não deixas o coche, morres tão
      certo como ser eu biscainho.
      Entendeu-o muito bem D. Quixote, e com muito sossego lhe respondeu:
      — Se foras cavaleiro, assim como o não és, já eu teria castigado a tua sandice e atrevimento,
      criatura reles.
      Ao que respondeu o biscainho lá pelo seu dialeto:
      — Não sou cavaleiro eu? juro a Deus que mentes, tão certo como ser eu cristão; se arrojas lança ou arrancas espada, verás como te vai tudo pelo pó do gato; biscainho por terra, fidalgo por mar, fidalgo com os diabos; e, se o negares, mentiste.
      — Agora o veremos, como dizia Agrages — respondeu D. Quixote.
      E, atirando a lança ao chão, desembainhou a espada, embraçou a rodela, e arremeteu ao biscainho, de estômago feito para lhe arrancar a vida. O biscainho, que assim o viu sobrevir-lhe, ainda que se quisesse apear da mula, que, por ser das de aluguer, não era das boas, nem havia que fiar nela, o mais que pôde foi sacar da espada; e foi-lhe dita achar-se junto ao coche, donde pôde tomar uma almofada que lhe serviu de escudo; e logo se foram um para o outro como dois mortais inimigos.
      A demais gente bem quisera pô-los em paz, mas não pôde, porque dizia o biscainho nas suas
      descosidas razões que, se o não deixassem acabar a batalha, ele próprio mataria a sua ama e a quantos lho estorvassem.
      A senhora do coche, pasmada e temerosa do que via, disse ao cocheiro que se desviasse algum tanto
      dali, e se pôs de longe a admirar a pavorosa contenda.
      No decurso dela, deu o biscainho uma grande cutilada a D. Quixote, acima de um ombro por sobre a rodela, que, a dar-lha sem defensa, o abrira até à cintura. D. Quixote, que sentiu o peso daquele desaforado golpe, deu um grande berro, dizendo:
      — Ó senhora da minha alma, Dulcinéia, flor da formosura, socorrei a este vosso cavaleiro, que,
      para satisfazer a vossa muita bondade, se acha em tão rigoroso transe.
      O dizer isto, apertar a espada, cobrir-se bem com a rodela, e arremeter ao biscainho, foi tudo um, indo determinado de aventurar tudo num só golpe. O biscainho, vendo-o vir assim contra ele, bem entendeu por aquele denodo a coragem do inimigo, e determinou fazer o mesmo que ele; pelo que se deteve a esperá-lo bem coberto com a almofada, sem poder rodear a mula, nem a uma nem outra parte, que já de puro cansaço, e não afeita a semelhantes brinquedos, não podia dar um passo.
      Vinha, pois, como dito é, D. Quixote contra o acautelado biscainho, com a espada em alto,
      determinado a abri-lo em dois; e o biscainho o aguardava assim mesmo, com a espada erguida, e
      escudado com a sua almofada.
      Todos os circunstantes estavam temerosos e transidos à espera do que se poderia seguir de golpes tamanhos, com que de parte a parte se ameaçavam. A senhora do coche, e as suas criadas, faziam mil votos e promessas a todas as imagens e igrejas de Espanha, para que Deus livrasse ao seu escudeiro e a elas daquele tão grande perigo.
      O pior que tudo é que, neste ponto exatamente, interrompe o autor da história esta batalha, dando por desculpa não ter achado mais notícias desta façanha de D. Quixote, além das já referidas.
      Verdade é que o segundo autor desta obra não quis crer que tão curiosa história estivesse enterrada no esquecimento, nem que houvessem sido tão pouco curiosos os engenhos da Mancha, que não tivessem em seus arquivos ou escritórios alguns papéis que deste famoso cavaleiro tratassem; e assim, com esta persuasão, não perdeu a esperança de vir a achar o final desta aprazível narrativa, o
      qual por favor do céu se lhe deparou como ao diante se contará.

      quinta-feira, 21 de abril de 2011

      Miguel de Cervantes



      D. Quixote de La Mancha
      CAPÍTULO VIII
      Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos
      moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação.
      Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que D. Quixote os viu, disse para o escudeiro:
      — A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
      — Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
      — Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase
      duas léguas.
      — Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de
      vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as
      mós.
      — Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.
      Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado:
      — Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.
      Levantou-se neste com menos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D.
      Quixote, disse:
      — Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar.
      E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora.
      Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo,
      reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.
      — Valha-me Deus! — exclamou Sancho — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que
      fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça
      tivesse outros?
      — Cala a boca, amigo Sancho — respondeu D. Quixote; — as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros, transformou estes gigantes em moinhos, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas ao cabo das contas, pouco lhe hão-de valer as suas más artes contra a bondade da minha espada.
      — Valha-o Deus, que o pode! — respondeu Pança.
      E ajudando-o a levantar, o tornou a subir para cima do Rocinante, que estava também meio
      desasado.
      Conversando no passado sucesso, continuaram caminho para Porto Lápice, porque por ali (dizia D. Quixote) não era possível que se não achassem muitas e diversas aventuras, por ser sítio de grande passagem. Que pesar o ver-se então sem lança! (como ele dizia ao escudeiro). Mas dizia-lhe também logo:
      — Recordo-me ter lido que outro cavaleiro espanhol, por nome Diogo Peres de Vargas, tendo-se-lhe numa batalha quebrado a espada, esgalhou de uma azinheira uma pesada arranca, e só com ela fez tais coisas naquele dia, e a tantos mouros machucou, que lhe ficou de apelido “o Machuca”; e assim ele como os seus descendentes se ficaram nomeando desde aquele dia Vargas e Machuca.
      Refiro-te isto, porque a primeira azinheira ou carvalho que se me depare, tenciono sacar-lhe outro pau tão bom como aquele, e fazer com ele tais façanhas, que te julgues bem afortunado por teres chegado a presenciá-las, e poderes ser testemunha de coisas tão convizinhas do impossível.
      — Por Deus, senhor D. Quixote — disse Sancho — creio tudo que Vossa Mercê me diz; mas olhe
      se se endireita um poucochinho, que parece ir descaindo para a banda; há-de ser do trambolhão que apanhou.
      — E é verdade — respondeu D. Quixote; — e se me não queixo com a dor, é porque aos cavaleiros
      andantes não é dado lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhes saiam as tripas.
      — Sendo assim, já estou calado — respondeu Sancho; — mas sabe Deus se eu não achava melhor
      que Sua Mercê se queixara quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me doendo
      seja o que for, hei-de por força berrar, se é que a tal regra, de não dar mostras de sentir, não chega também aos escudeiros da cavalaria andante.
      Não deixou de se rir D. Quixote da simpleza do seu pajem; e declarou-lhe que podia queixar-se
      quantas vezes quisesse, com vontade ou sem ela, que até aquela data nunca lera proibição disso nos livros de cavalaria.
      Advertiu-lhe Sancho que reparasse em que eram horas de comer. Respondeu-lhe o amo que por
      enquanto lhe não era necessário; que embora comesse ele, se lhe parecia.
      Com esta licença, ajeitou-se Pança o melhor que pôde sobre o seu jumento, e tirando dos alforjes o que para eles tinha metido, ia caminhando e comendo atrás do amo com todo o seu descanso; e de quando em quando empinava a borracha com tanto gosto, que faria inveja ao mais refestelado bodegueiro de Málaga. E enquanto ia assim amiudando os tragos, não se lembrava de nenhuma promessa que o amo lhe tivesse feito; nem tinha por trabalho, antes por vida mui regalada, o andar buscando as aventuras, por perigosas que fossem.
      (…)

      quarta-feira, 20 de abril de 2011

      Letras & Linhas: Biografias

      Letras & Linhas: Biografias: "Miguel de Cervantes Filho de um cirurgião cujo nome era Rodrigo e de Leonor de Cortinas, supõe-se que Miguel de Cervantes tenha nascid..."

      terça-feira, 19 de abril de 2011

      Letras & Linhas: História da Arte

      Letras & Linhas: História da Arte: " A palavra “arte” teve muitos significados durante a história. Sempre houve uma pequena discussão, pois alguns achavam que a arte era uma..."

      segunda-feira, 18 de abril de 2011

      YouTube - Entrelinhas - Monteiro Lobato

      YouTube - Entrelinhas - Monteiro Lobato

      Monteiro Lobato



      O capoeira "O 22 da Marajó"  
       
      O 22 da "marajó" era um imperial marinheiro, mestre em desordens e amigo de revirar de pernas para cima kiosques de portugueses. Rapazinho bonito, imperava na saída onde suas proezas de capoeira excepcional andavam de boca embora discutidas como façanhas de Rolando. E tais fez que o governo incomodado, deportou-o  para o norte, a servir no Alto Amazonas em canhoneira da flotilha estacionada no Pará.  A mudança de lima regenerou-se e o rapaz resolvendo tirar partido de seus dotes plásticos, ferrou namoro   com a mulher de um shipchandler, da qual se tornou amante.
       
      O shipchamdler  morreu e o 22  casou-se com a viúva, herdeira de um paco de quatrocentos contos de reis.  Pediu baixa,  obteve-a e foi com a esposa em viagem de núpcias à Europa, onde permaneceu dois anos. Ao cabo regressou à pátria,  elegendo o Rio de Janeiro para residência definitiva.
       
      Mas quanto mudara!  Transformado num perfeito gentleman, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas, as luvas, a cartola café-com-leite.
       
      Quem é?  Quem é? Ninguém sabia.
       
      - Algum fidalgo certamente cochichava.  Não vêem que modos distintos?
       
      E o 22, impávido, patroneando, de monóculo no olhar, a olhar de cima para os homens e as coisas...
       
      Tinha hábitos certos e todos os dias passava pelo Largo de São Francisco, como paca pelo carreiro.
       
      Aconteceu, porém, que ali era ponto de uma roda de rapazes chiques, fortemente despeitados ante a esmagadora elegância do desconhecido, sinal perigoso, sem dúvida, em matéria de esporte feminino.       Os quais rapazes, depois de muito cochicho, deliberaram quebrar a proa ao novo concorrente, apenas aguardando para isso a boa oportunidade.
       
      Certa vez em que o Petrônio passava mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda chique um capoeira mordedor, que se gabava de ser mestre em "soltas".
       
      Quem sabe hoje o que é "solta", nesta época de kikees e shootes?  Solta era uma cabeçada sem hands, isto é, sem encostar a mão no adversário.
       
      Mas o capoeira chegou e mordeu-os em cinco mil réis.
       
      - Perfeitamente, responderam os rapazes, mas primeiro hás de sapecar uma solta naquele freguês que ali vai de monóculo.
       
      - É já! Exclamou o capoeirista, gingando o corpo. E tirando o chapéu foi portar-se  na calçada  por onde vinha o 22, de martelo e monóculo sacudindo passos de lord, muito esticado dentro do seu croisé cortado em Londres.
       
      - Um, dois,  três...Quando Petrônio o defrontou o capoeira avança e despeja-lhe uma formidável e primorosa cabeçada .
       
      O desconhecido, porém, quebrou o corpo, e a cabeça do atacante foi de encontro à parede, ao mesmo tempo em que um pé bem manejado plantava-o no chão com elegantíssima rasteira.  O mordedor, tonto e confuso, ergueu-se para desabar de novo, cerceado por outra gentil rasteira.  Passara imprevistamente de agressor a agredido e, desnorteado, deu sebo às canalhas, indo apalpar o galo a cem passos à distância.
       
      Enquanto isso o Petrônio, consertando a gravata com grande calma, dirigiu a palavra a assombradíssima roda elegante.
       
      - Só  uma  besta  destas dá "soltas" sem negaças.  Já dizia o Cincinato Quebra-louças: soltas sem negaças só em lampião de esquina.
       

      domingo, 10 de abril de 2011

      José de Alencar

      jose de alencar
      VIII
      Não abandonemos o pobre Leopoldo à sua amarga decepção.
      O moço chegara a casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre ele derramaram os acontecimentos da manhã.
      Talvez a
      morte de Amélia não lhe causasse tamanho pesar, como o daquela cruel decepção que estava presentemente curtindo.
      O aleijão excita geralmente uma invencível repugnância, repassada de terror. A aberração da forma humana abate o
      orgulho
      do bípede implume, fazendo-o descer abaixo do orangotango. Ao mesmo tempo, é ameaça viva a uma das mais caras
      aspirações do homem: a esperança de renascer em outra criatura, gerada de seu ser. Se a fatalidade pesar sobre a prole
      querida?
      Imagine-se que dor era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente para esmagar em seu coração a
      imagem
      da mulher amada, da virgem de seus castos sonhos?
      O contraste sobretudo era terrível. Se Amélia fosse feia, o senão do pé não passara de um defeito; não quebraria a
      harmonia
      do todo. Mas Amélia era linda, e não somente linda; tinha a beleza regular, suave e pura que se pode chamar a melodia
      da forma.

      A desproporção grosseira de um membro tornava-se pois, nessa estátua perfeita, uma verdadeira
      monstruosidade. Era
      um berro no meio de uma sinfonia; era um disparate da natureza, uma superfetação do horrível no belo. Fazia lembrar
      os
      ídolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do povo reúne em uma só imagem o símbolo dos maiores
      contrastes.
      Nessa angústia passou Leopoldo o resto daquele dia e os que se lhe seguiram.
      -- Não amo a sua beleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu adoro nela é a beleza moral, a alma nobre e
      pura,
      a criatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o invólucro de seu espírito imaculado, creio que havia de adorá-la
      tanto,
      como a adorei desde o momento em que primeiro a vi.
      "Fosse ela feia para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta os sentidos, para mim seria sempre bela,
      porque
      meus olhos haviam de vê-la através de seu esplêndido sorriso. O que é o corpo humano no fim de contas? O que é o
      contorno suave de um talhe elegante, e a cútis acetinada de um rosto ou de um colo mimoso? Um pouco de matéria a
      que a
      luz transmite a cor, o espírito e a vida. Tirem-lhe esses dois alentos, e verão que lodo impuro e nauseante ficam sendo
      aquelas
      formas sedutoras."
      "Pois luz e espírito não eram a essência da alma de Amélia? Quando essa alma a vestia com uma túnica resplandecente,
      que
      mulher se lhe podia comparar em lindeza? Então não era somente formosa, flutuava em um éter de beleza
      deslumbrante."
      "Mas ela não é feia, é aleijada!..."

      Um soluço afogou as tristes lucubrações do mancebo. Ele repassou outra vez na mente as circunstâncias de sua triste
      descoberta; quis duvidar, combateu pertinazmente sua própria razão que lhe apresentava a realidade, e afinal sucumbiu,
      curvando-se à implacável certeza. Tinha visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe oferecera ocasião de
      apalpar a
      verdade e saciar-se dela.
      -- Não se admira a Vênus de Milo, uma estátua mutilada? dizia o mancebo relutando contra sua viva repugnância. Não
      se
      admira o primor da arte grega, apesar de não restar dela mais do que uma cabeça e um torso de mulher? Essa beleza
      truncada não vale a beleza aleijada? A mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?
      A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento consolador Replicava logo, refutando
      vigorosamente as argúcias do coração:
      -- A estátua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a cópia integral da beleza que lhe servia de tipo, mas um
      fragmento apenas dessa cópia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, recompõe o ideal do artista.
      Admira-se a Vênus de Milo, como se admira um esboço não acabado de Rafael; como se admira a pétala de uma rosa,
      arrancada da corola. Mas, fosse embora aquele primor de estatuária a reprodução exata de uma mulher, a mutilação
      respeita
      a beleza; o aleijão a deturpa. Se a mulher que se ama perdesse um pé, seria desgraçada; com um pé monstruoso, é mais
      do
      que desgraçada, é repulsiva.
      Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:
      -- Infelizmente assim é. Mas por que há de ser assim? A mutilação é um fato humano; o aleijão é um fato natural. Essa
      aberração do princípio criador, esse desvio da forma primitiva, indicam sem dúvida um vício na essência do organismo.

      Não
      se tem verificado que nos corpos mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos corcundas
      sobretudo,
      porque a espinha dorsal é o tronco da inteligência. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não denota eiva
      tãoprofunda do espírito, é certo, mas revela que a alma não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.
      O resultado destas cogitações era a gota de fel espremido, que ia filtrando a pouco e pouco no coração e acabaria por
      saturar todas as doces reminiscências dos últimos dias. Leopoldo convenceu-se que não devia amar a desconhecida;
      mas, ao
      contrário, arrancar de sua alma os germes da paixão nascente.

      Tomando esta.resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de suas desgraças de família, esteve a lembrar-se de
      algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de cultivá-las de novo. Um instinto lhe dizia que para gastar as primícias de
      um
      coração virgem, não há como o atrito do mundo.
      Entre as casas que outrora freqüentava, escolheu para a primeira noite a de D. Clementina, amiga íntima de sua irmã.
      Era uma
      senhora já no declínio da idade e da formosura; gostava muito de dançar, e por isso reunia constantemente em sua sala
      as
      moças de sua amizade. Logo que se achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o sinal, o marido arredava a
      mesa
      do centro, o filho, menino de quinze anos, sentava-se ao piano e...
      -- Chassé-croisé! gritava D. Clementina.
      Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de encontrar bastante arruído para aturdir-se e
      abafar
      uns gemidos que sentia às vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias depois da decepção; às oito
      horas da
      noite entrou o moço na sala de D. Clementina, que o recebeu com surpresa cheia de amabilidades.
      Além de estimado, acontecia que ele era justamente o quarto par. Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo,
      e
      três velhas, inválidas da dança, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros; servindo uma senhora de cavalheiro,
      ainda
      faltava metade de um par.

      Quando a campainha anunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos fitos na porta da sala, dispôs-se a receber o
      recém-chegado com o seu mais afável sorriso. Vendo Leopoldo, correu a ele, e desfolhando-lhe um ramalhete de
      amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de
      galope.
      Realmente ele não podia escolher melhor. A agitação daquela dança rápida, sem pausa; a confusão que os pares criavam
      de
      propósito para aumentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha; todo esse
      rumor e atropelo tinham por tal forma sacudido o espírito de Leopoldo, que as idéias e recordações tristes lhe caíram,
      como
      as folhas secas de uma árvore, abalada pelo vento rijo do outono.
      Sentiu o coração vazio, porém tranqüilo; o prazer vivo e cintilante daquela reunião, apenas roçava-lhe pela superfície;
      não
      penetrava, mas também já não transudavam-lhe do íntimo as amarguras de que nos últimos dias se tinha saturado.
      De repente operou-se na perspectiva da sala uma transformação inesperada. Amélia entrara; e sua graça difundiu-se
      com um
      influxo celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na irradiação de seus olhares.
      Leopoldo embebeu-se naquela suave aparição, como da primeira vez que a vira, mas para percorrer em um ápice, as
      fases
      de seu amor, e cair de novo na esmagadora decepção.
      De repente aquela estátua luminosa escureceu a seus olhos deixando apenas um resíduo negro: esqueleto calcinado que
      arrastava uma deformidade. Debalde Amélia se ostentava no fulgor de sua beleza, toucada pelos primeiros arrebóis do
      amor;
      debalde as ondulações de seu corpo debuxavam formas encantadoras, e o sorriso de seus lábios destilava uma fragrância

      mística de beijos puros; os olhos de Leopoldo não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido
      roçagante,
      sua vista fitava-se implacável no pé monstruoso que lhe esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.
      Todos os encantos dessa criatura, ele os despia de seu manto sedutor e dissecava-os com frio rancor. A inflexão
      voluptuosa
      do talhe provinha da resistência que opunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um esforço supremo para
      disfarçar o
      aleijão, o sorriso gracioso um enleio para prender os olhos estranhos, não permitindo que eles se abaixassem até à
      fímbria do
      vestido.
      E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se tinha cravado na orla da saia elegante, donde não
      havia forças para arrancá-lo.
      Amélia sentiu esse olhar cruciante e estremeceu, tomada de um vago terror. Imediatamente sentou-se, e arranjando as
      dobras
      do vestido, procurou disfarçar; mas em vão: o olhar do moço continuava fito no mesmo ponto e produzia nela uma
      sensação
      incômoda.
      -- É D. Amélia, filha de um negociante, chamado Sales. Não conhece?
      Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.

      -- Não, minha senhora.
      -- Então vou apresentá-lo.
      -- Obrigado, D. Clementina; depois.
      -- Não acha muito galante?
      Leopoldo hesitou:
      -- Oh! muito! . . .
      Viera-lhe nessa ocasião o mesmo ímpeto que sentem de ordinário os amantes em igual situação: o de criticar e
      desmerecer
      nas prendas da mulher que os faz sofrer. É uma reação natural do coração; Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal
      procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de ofendê-la. A culpa de amá-
      la era
      sua, e não dela.
      Aproveitou um momento de distração da dona da casa, para tomar o chapéu e esquivar-se sem que o percebessem.
      Amélia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na porta por onde acabava o moço de sair. Quando,
      passado um instante, caiu em si, ficou surpreendida. Que tinha ela com aquele desconhecido?
      Ao chegar, vendo o rosto pálido e os olhos profundos, que tão desagradável impressão haviam deixado em seu espírito,
      a
      moça havia sentido um mal-estar íntimo. Vinha com a alma cheia das primeiras delícias de um amor nascente; com as
      doces
      emoções da declaração de Horácio. A presença de Leopoldo foi um travo.
      Mas também para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horácio?
      Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triunfo, e ver humilde e
      abatido a
      seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difícil e esquiva, embora
      lhe
      custasse o sacrifício dos momentos agradáveis que podia passar junto de Horácio.A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incomodara, e entretanto seu olhar parecia agora sentir falta do mancebo.

      A princípio havia ali uma pessoa demais; agora faltava alguma coisa. Se não era um homem, era uma curiosidade, uma
      emoção.
      -- Amélia!
      A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
      -- Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
      Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela sala à busca de alguém.
      -- Não o vejo agora.
      -- Quem é?
      -- O Castro... Conhece?...
      -- Não, senhora.
      -- Querem ver que já se retirou?
      Amélia pôde reter o monossílabo que ia cair-lhe do lábio, confirmando a suposição da dona da casa. Tinha adivinhado
      que se
      tratava do seu desconhecido.
      -- Então ele me acha bonita?
      -- O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!

      -- Então foi de paixão que ele fugiu?
      -- Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Há namorados que perseguem,
      e
      outros que fogem!
      Amélia julgou prudente desviar a conversa daquele assunto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe
      recordava sua mocidade já desvanecida.

      sábado, 9 de abril de 2011

      José de Alencar

      jose de alencar
      A Pata da Gazela

      III
      Ninguém imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo que chamam a vida elegante.
      São como as árvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala estéril e efêmera.
      Nunca elas dão fruto, nem sequer flor.
      Horácio de Almeida era uma de tantas inteligências desperdiçadas no incessante bulício da moda.
      Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro não empregaram na fábrica de seus versos o
      aticismo, a
      inspiração e a graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava um epigrama.
      Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gosto, que Horácio imprimia no
      laço
      de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos mínimos acidentes de seu traje apurado.
      E a fisiologia?
      Poucos homens conheciam como Horácio o coração da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta
      assiduidade.
      O mais sábio professor ficaria estupefato da lucidez admirável, com que o leão costumava ler nesse caos da paixão, que
      a
      anatomia chamou coração de mulher.
      A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e
      arranjou
      um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível.
      Ao contrário, Horácio tinha estudado na realidade da vida; devassara os refolhos do pólipo, lhe sentira as pulsações, e
      fizera


      experiências in anima Vili. Não fatigou sua memória com a inútil bagagem dos termos técnicos e das noções científicas:
      lia os
      hieróglifos do amor com a linguagem garrida do homem da moda.
      A perspicácia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de observação, com que o nosso leão sondava o abismo
      do
      coração e rastreava no semblante da mulher os vagos sintomas de uma inclinação nascente, ou de uma afeição
      expirante, só
      os grandes médicos possuem tão altos dotes.
      Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos de reunião. As riquezas de sua
      elevada
      inteligência, as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um ócio tão laborioso, como é o far niente de um leão.
      Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupação; há nada
      mais
      difícil para o homem que ignora o trabalho?
      Se o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no dia para dedicá-los a um fim sério e útil, à
      ciência,
      à literatura, à arte, que belos triunfos não obteria sua rica imaginação servida por um espírito cintilante?
      Mas o nosso leão tinha a este respeito idéias excêntricas.
      -- A política, dizia ele, quando não dá em especulação, passa a mistificação. A ciência, se escapa de mania, torna-se
      uma
      gleba em que o sábio trabalha para o néscio. Literatura e arte são plágios; quem pode fazer poesia e romance ao vivo,
      não se
      dá ao trabalho de reproduzi-los; nem contempla estátuas, quem lhes admira os modelos animados e palpitantes.
      Com tais paradoxos, Horácio não achava emprego mais digno para a inteligência, do que a difícil ciência de consumir
      gradualmente a vida e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este vale de lágrimas, em que todos peregrinamos
      A mulher era para ele a obra suprema, o verbo da criação. Toda a religião como toda a felicidade, toda a ciência como
      toda
      a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto incompreensível do sublime e do torpe, do celeste e do satânico:
      amálgama de
      luz e cinzas, de lodo e néctar.
      -- Amar é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar a lei da criação em seu mais profundo mistério,
      a
      mulher. Amar é admirar o belo em sua mais esplêndida revelação; é fazer poemas e estátuas como nunca as realizou o
      gênio
      humano.
      Mas o que sentia Horácio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.
      O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mútua de duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas
      quando se realiza, é indissolúvel. Nada separa duas almas gêmeas que prende o vínculo de sua origem divina.
      O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos
      atravessara
      os salões, como uma galeria de estátuas animadas e vivos painéis, parando um instante em face dessas obras-primas da
      natureza.
      Vieram uns após outros todos os tipos: a beleza ardente das regiões tépidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o
      moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e
      garboso
      ou as formas esbeltas e flexíveis.
      Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difícil. A beleza comum já não o satisfazia; era preciso
      a
      obra-prima para excitar-lhe a atenção e comovê-lo.


      Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura caíram na monotonia. Já o leão não sentia pela mais bela
      mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um crítico.
      Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar, a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi
      a
      princípio uma boca bonita, cofre de pérolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma trança densa e negra,
      como
      a asa da procela que se inflama. Uma cintura de sílfide, um colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma
      graça
      especial, um não sei que: tudo recebeu culto do nosso leão.
      Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas
      afinal
      embotou-se; e o prazer não foi para ela mais do que a vulgar satisfação de um hábito.
      O moço cortejava as senhoras como uma ocupação indispensável à sua vida, como o desempenho da tarefa diária; mas
      sem
      a menor comoção.
      Amar era um entretenimento do espírito, como passear a cavalo, freqüentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.
      O amor já não tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em todas as formas; na comédia e no drama; no
      idílio e
      na ode. Como Richelieu, diziam até que ele já o havia calcado com o tacão da bota.
      Nestas circunstâncias bem se compreende a impressão profunda que nele produzia a mimosa botina, achada naquela
      manhã.
      Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a forma
      sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para surpreender. Como lhe passara despercebido esse condão mágico da
      mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as emoções do amor?
      Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada por longa apatia, a reação foi
      violenta.
      Inflamou-se a imaginação e especialmente com o toque do mistério que trazia a aventura. Se o dono da botina, o
      sonhado
      pezinho, se mostrasse desde logo, não produziria o mesmo efeito; não teria o sabor do desconhecido, que é irmão do
      proibido.
      Imagine, quem conhecer o coração humano, a veemência dessa paixão, excitada pelo tédio do passado e alimentada por
      uma
      imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludíbrio de sua fantasia?
      As extravagâncias de Horácio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a
      agitação
      dessa existência, embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.
      Não se riam, homens sérios e graves, não zombem de semelhantes extravagâncias; são elas o delírio da febre do
      materialismo
      que ataca o século.
      Essa paixão de Horácio, o que é senão aberração da alma, consagrada ao culto da matéria? A voracidade insaciável do
      desejo vai criando dessas monstruosidades incompreensíveis.
      Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool. A princípio basta-lhe o vinho fino e
      aristocrático;
      depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão do gengibre em rum, isto é, a larva de um vulcão
      preparada
      à guisa de grogue.
      IV


      Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então ocupava na Glória.
      Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma
      presa
      àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força
      da
      paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma.
      Fosse ilusão dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço
      ver,
      no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de
      relance
      um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.
      Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a
      esperança
      de que um obstáculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez contemplar a moça.
      Quando,
      porém, isso não sucedesse, consolava-o a idéia de conhecer a direção que tomaria a linda vitória.
      -- Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!... Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céu. Me voltaria para ali
      quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do
      firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
      O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de ver a moça,
      ou
      somente o carro, como a necessidade de ocupar seu espírito, o que o impelia nessa perseguição de uma sombra.
      -- Eu tornarei a vê-la, pensava ele consigo; e ela me há de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito
      que
      o magnetismo se resume nele; que a lei da atração não é senão a lei da simpatia; os pólos são a cabeça e o coração, na
      terra
      como no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revelou à minha paixão,
      aquela
      a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ela, como ela para mim,
      impelidos por
      uma força misteriosa, por mútua aspiração.
      Com o animo repousado por essa convicção que nele se derramara, entrou Leopoldo em casa. Aí o esperava o
      isolamento
      em que se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irmã a quem adorava.
      Nessa irmã tinha ele resumido todas as afeições da família, prematuramente arrebatada à sua ternura; o amor filial, que
      não
      tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irmão, seu companheiro de infância, todos esses sentimentos cortados em
      flor,
      ele os transportara para aquele ente querido, que era a imagem de sua mãe.
      Essa perda deixara um vácuo imenso no coração de Leopoldo; a princípio enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa
      mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquele coração ermo. O mancebo carecia de uma
      afeição
      para povoar esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse lúgubre silêncio. É tão doce partilhar sua
      melancolia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dois ombros para a cruz, e dois peitos
      para
      a alegria; alivia-se o peso, mas duplica-se o gozo.
      Ao cair da tarde, quando o crepúsculo já desdobrava sobre a cidade o véu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado à
      janela
      de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados no azul diáfano do céu, onde cintilava a primeira
      estrela.
      A seus pés desdobrava-se a baía plácida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas,
      caprichosamente
      recortadas.O espírito do moço não se embebia decerto na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre n


      ova.
      Ao
      contrário, abandonava-se todo às recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação
      da
      linda moça. Passava e repassava em sua memória, como em um cadinho, todas as circunstâncias mínimas deste grande e
      importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desapareceu por último ao dobrar o canto
      da
      rua.
      Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados: lá
      ficou um
      raio de mel, que o lábio ávido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da
      moça,
      avivados pela maior contensão do espírito.
      Houve uma ocasião em que o mancebo quis representar em sua lembrança a imagem da moça; naturalmente começou
      interrogando sua memória a respeito dos traços principais. Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou
      morena? Que cor tinham seus olhos?
      A nenhuma dessas interrogações satisfez a memória; porque não recebera a impressão particular de cada um dos traços
      da
      moça. Não obstante, a aparição encantadora ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se desenhara a seus olhos
      algumas horas antes. Era a imagem diáfana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
      -- Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no íntimo. Eu a contemplei, como se contempla
      uma
      luz brilhante: vê-se a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve como uma roupagem. Ela é
      minha
      luz; não sei a cor e a forma que tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda meu ser de uma aurora celeste.
      Não
      poderia descrevê-la, como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu
      coração?
      As pálpebras do mancebo cerraram-se coando apenas uma réstia de olhar, que se embebia nas alvas espirais da fumaça
      do
      charuto. Percebia-se que naquela névoa se debuxava à sua imaginação a sedutora imagem, diante da qual ele caía em
      êxtases
      de uma doçura inefável.
      -- Quem sabe? Talvez não seja ela o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o
      talhe
      elegante. Mas eu a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Vênus, a deusa da formosura,
      surgindo
      da espuma das ondas, não é outra coisa senão o mito da mulher amada, surgindo dentre as puras ilusões do coração! O
      que
      eu admiro nela, o que me enleva, é sua beleza celeste; é o anjo que transparece através do invólucro terrestre; é a alma
      pura e
      imaculada que se derrama de seus lábios em sorrisos, e a envolve como a cintilação de uma estrela.
      Leopoldo já não estava só na existência; tinha para acompanhá-lo na esperança essa doce aparição, como para partilhar
      a
      saudade tinha a memória querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vínculo
      misterioso; e
      criou assim uma família ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
      Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas ocupações habituais e cerrava sua alma para não deixar
      que
      as misérias do mundo aí penetrando profanassem o templo de sua adoração, o templo da esperança e da saudade. Fora
      dessas longas horas, encerrava-se naquele asilo e aí vivia.
      Alguns dias depois do encontro da Rua da Quitanda, o Castro percorrendo distraidamente os jornais da manhã, deu com
      osolhos sobre os anúncios de espetáculo, coisa que desde muito tempo não existia para ele. Representava-se no Teatro
      Lírico a
      Lúcia de Lamermoor, o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na língua dos anjos.
      O mancebo teve um desejo irresistível de ir aquela noite ao espetáculo, apesar de conservar ainda o luto pesado. Não
      compreendia esse capricho de seu coração; atribuiu-o ao encanto das reminiscências daquela música tão triste, e
      também
      daquele amor tão estremecido, que os homens quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no túmulo. Ele ia
      saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação de uma dor santa.
      Eram perto de dez horas; cantava-se o final do segundo ato da ópera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado
      direito,
      estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, ergueu os olhos, e
      volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se
      escapava de
      sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e ardentes.
      Vira a mulher amada.
      Amélia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração, a mulher bela tem, como o homem de inteligência, em
      certos
      momentos influições enérgicas de poesia; nessas ocasiões ambos irradiam- a mulher fica esplêndida, o homem sublime.
      O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nívea transparência de um lindo vestido de tarlatana com laivos
      escarlates.
      Coroava-lhe a fronte o diadema de suas belas tranças, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o
      colo.
      Os cabeleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, repentirs. Por que motivo? A alma que se arrepende
      envolve-se
      daquela forma; o pesar a confrange. Já se vê que os cabeleireiros também são poetas.
      Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos maciços de suas formas gentis, o que arrebatou o espírito do
      mancebo. Ele só viu a luz, o brilho d'alma, rorejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contar-lhe
      as
      pétalas.
      Amélia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de veludo da balaustrada, prestava atenção à cena, recolhendo `as
      vezes
      a vista para discorrê-la vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o pano caiu, conservou-se na mesma posição,
      conversando com sua mãe e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cair sobre a
      platéia um
      olhar súbito e vivo. Foi uma centelha elétrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
      Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visível incômodo. Quis disfarçar, mas afinal ergueu-se, para
      ocultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura, a qual ocupava o outro lugar da frente.
      O olhar que deitara à platéia encontrou o olhar profundo e ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio
      brilhante,
      reagiu como estilete para feri-la no coração.
      Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a coluna e o busto de Laura ele via a sombra da mulher a
      quem
      amava, não se interrompeu seu enlevo. De vez em quando passava-lhe pelo rosto um lampejo sutil, no qual pressentia o
      olhar
      furtivo da moça.

      sexta-feira, 8 de abril de 2011

      José de Alencar

      jose de alencar
      A Pata da Gazela
      I
      Estava parada na Rua da Quitanda, próximo à da Assembléia, uma linda vitória, puxada por soberbos cavalos do Cabo.
      Dentro do carro havia duas moças; uma delas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena
      estatura,
      muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
      Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda
      pretendiam fazer.
      -- Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roxo claro.
      -- Ao escritório de papai: talvez ele queira vir conosco. Na volta passaremos pela Rua do Ouvidor, respondeu a mais
      esbelta,
      cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.
      O vestido roxo debruçou-se de modo a olhar para fora, no sentido contrário àquele em que seguia o carro, enquanto o
      roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevera a nota de
      suas
      encomendas.
      -- O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roxo com um movimento de impaciência.
      -- É verdade! respondeu distraidamente a companheira.
      Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam à espera do
      lacaio,
      mandado a algum ponto próximo. A impaciência da moça de vestido roxo era partilhada pelos fogosos cavalos, que
      dificilmente conseguia sofrear um cocheiro agaloado.
      Depois de alguns momentos de espera, sobressaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais às almofadas, como
      paraocultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
      -- Laura!... Laura!...
      E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
      -- O que é, Amélia?
      -- Não vês? Aquele moço que está ali defronte nos olhando.
      -- Que. tem isto? disse Laura sorrindo.
      -- Não gosto! replicou Amélia com um movimento de contrariedade. Há quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de
      mim?
      -- Volta-lhe as costas!
      -- Vamos para diante.
      -- Como quiseres.
      Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo a tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não
      desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com
      admiração
      franca e apaixonada.
      Simples no traje, e pouco favorecido a respeito de beleza; os dotes naturais que excitavam nesse moço alguma atenção
      eram
      uma vasta fronte meditativa e os grandes olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que naquele momento
      derramavam pelo semblante de Amélia.
      Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda em sentido oposto à direção do carro, avistara a moça recostada nas
      almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se à ombreira de uma
      porta de
      escritório, esqueceu-se naquela ardente contemplação.
      O coração é um solo. Vale onde brotam as paixões, como os outros vales da natureza inanimada, ele tem suas estações,
      suas
      quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de abundância.
      Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol produzem na terra uma fermentação, que forma o húmus; a
      semente, caindo aí, brota com rapidez. Depois das grandes dores e das lágrimas torrenciais, forma-se também no
      coração do
      homem um húmus poderoso, uma exuberância de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso,
      que aí
      penetre, é semente de paixão, e pulula com vigor extremo.
      O moço parecia estar nessas condições: ele trajava luto pesado, não somente nas roupas negras, como na cor macilenta
      das
      faces nuas, e na mágoa que lhe escurecia a fronte.
      Notando Amélia a insistência do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia despedir os
      fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um desassossego íntimo. Agitava-se impaciente, como uma criatura
      no meio
      de um sono inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadelo.
      Até que abriu o chapeuzinho-de-sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objeto. Nesta ocasião,
      Laura,
      que freqüentemente se debruçava para ver quando vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:
      -- Enfim; aí vem!
      -- Felizmente! disse Amélia.O lacaio aproximava-se a passos medidos; trazia na mão um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a
      oscilação
      dos objetos envoltos desfizera, obrigando o portador a apertá-lo de vez em quando.
      Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo da carruagem, Amélia, tomando um tom
      imperativo,
      disse para o cocheiro:
      -- Vamos! vamos!
      Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da
      fogosa
      parelha. Deitar o embrulho na caixa da vitória, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada, foi para o criado,
      habituado a essa manobra, negócio de um instante. Não percebera ele, porém, que abrindo-se o papel com a corrida, um
      dos
      objetos nele contidos escorregara e, justamente na ocasião de deitar o embrulho na caixa do carro, caíra na calçada.
      Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das mãos do lacaio, tivera um pressentimento do
      acidente,
      ao ver o papel desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo-o por baixo do assento da vitória, ela debruçou-se
      ainda
      uma vez para verificar se com efeito alguma coisa havia caído. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas
      palavras de contrariedade:
      -- Como ele manda isto! Por mais que se lhe recomende!
      Laura nada viu, porque já a vitória rodava ligeiramente sobre os paralelepípedos.
      Nesse momento, porém, dobrando a Rua da Assembléia, se aproximara um moço elegante não só no traje do melhor
      gosto,
      como na graça de sua pessoa: era sem dúvida um dos príncipes da moda, um dos leões da Rua do Ouvidor; mas desse
      podemos assegurar pelo seu parecer distinto que não tinha usurpado o título.
      O mancebo viu casualmente o lacaio quando passara por ele correndo, e percebeu que um objeto caíra do embrulho.
      Naturalmente não se dignaria abaixar para apanhá-lo, nem mesmo deitar-lhe um olhar, se não visse aparecer ao lado da
      vitória o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer à melhor sociedade.
      Então apressou-se, para ter ocasião de fazer uma fineza, e pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecera bonita. Os
      leões
      são apaixonadíssimos de tais encontros; acham-lhes um sainete que destrói a monotonia das relações habituais.
      Quando o moço ergueu-se com o objeto na mão, já o carro dobrava a Rua Sete de Setembro. Ficou ele um momento
      indeciso, olhando em torno, como se esperasse alguma informação a respeito da pessoa a quem pertencia o carro. Sem
      dúvida a senhora era conhecida em alguma loja de fazendas; talvez tivesse aí feito compras.
      Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta que fizera a um caixeiro próximo, resolveu-se a
      meter o objeto no bolso e seguir seu caminho.
      II
      Horácio de Almeida, o nosso leão, voltou a casa à hora do costume, quatro da tarde.
      Os sucessivos encontros da Rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a visita indispensável ao alfaiate; as anedotas do
      Alcázar na noite antecedente; a crônica anacreôntica do Rio de Janeiro, chistosamente comentada; algumas rajadas de
      maledicência, que é a pimenta social; todas essas ocupações importantes, que absorvem a vida do leão, distraíram
      Horácio a
      ponto de se esquecer ele do objeto guardado no bolso do paletó.
      Como admitir que um príncipe da moda não aproveitasse a aventura do carro, para sobre ela bordar um romance de rua,
      com que excitasse a curiosidade dos amigos? Realmente é admirável; e seria incompreensível se não fosse a
      circunstância deter poucos passos adiante encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão arrastava... ia dizer a
      asa,
      mas isso seria anacronismo; dizia-se no tempo em que os leões se chamavam galos; hoje deve dizer-se arrastar a juba; é
      mais
      bonito e indica mais submissão. Arrastar a asa é enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
      Foi só quando, encostado em sua otomana, descansava para o jantar, que Horácio, procurando a carteira de charutos no
      bolso do fraque, lembrou-se do objeto. Teve então curiosidade de examiná-lo: sabia o que era; na ocasião de apanhá-lo
      reconhecera o pé de uma botina de senhora; mas não fizera grande reparo.
      Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, a sós em seu aposento, e despreocupado da idéia de o restituir,
      Horácio
      achou o objeto digno de séria atenção; e aproximando-se da janela, começou um exame consciencioso.
      Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pelica e seda, a concha mimosa de uma pérola, a faceira
      irmã
      do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flor, sob a inspiração de algum
      artista
      ignoto, de algum poeta de ceiró e torquês.
      Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva delicadeza da forma, o que seduzia o nosso leão; eram
      sobretudo os debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na pelica os contornos do pezinho
      desconhecido. A botina fora servida, e muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua
      primitiva cor
      bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante uso.
      Se fosse um calçado em folha, saído da loja, não teria grande valor aos olhos do nosso leão, habituado não só a ver,
      como a
      calçar, as obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquela peça que tinha nas mãos, notasse maior
      elegância no corte, e um apuro escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa mínima
      circunstância.
      Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste mimoso de alguma beleza, o gentil companheiro de uma
      moça
      formosa, de quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do pezinho
      arqueado.
      Na sola se desenhava a curva graciosa da planta sutil, que só nas extremidades beijava o chão, como o silfo que frisa a
      superfície do lago com a ponta das asas.
      Há um aroma, que só tem uma flor na terra, o aroma da mulher bonita: fragrância voluptuosa que se exala ao mesmo
      tempo
      do corpo e da alma; perfume inebriante que penetra no coração como o amor volatilizado. A botina estava impregnada
      desse
      aroma delicioso; o delicado tubo de seda, que se elevava como a corola de um lírio, derramava, como a flor, ondas
      suaves.
      O mancebo colocara longe de si o charuto para não desvanecer com o fumo os bafejos daquele odor suave. Não havia aí
      o
      menor laivo de essência artificial preparada pela arte do perfumismo; era a pura exalação de uma cútis acetinada, esse
      hálito
      de saúde que perspira através da fina e macia tez, e como através das pétalas de uma rosa.
      De repente uma idéia perpassou no espírito do moço, que o fez estremecer. Essa botina grácil, em que mal caberia sua
      mão
      aristocrática, essa botina mais mimosa do que sua luva de pelica, não podia ter um número maior do que o de seus anos,
      vinte
      e nove!
      -- Será de uma menina! murmurou ele um tanto desconsolado.
      Examinou novamente a obra-prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da
      haste,sondou o interior da concha, que servira de regaço ao feiticeiro pezinho. Depois de alguns instantes deste exame
      profundo e
      minucioso, um sorriso expandiu o semblante de Horácio
      -- É de moça, é de mulher! murmurou ele. Aqui estão os sinais evidentes; não podem falhar. A fábula de Édipo é uma
      verdade eterna. no enigma da esfinge está realmente o mito da vida. O homem é o animal que de manhã anda sobre
      quatro
      pés; ao meio-dia sobre dois; à tarde sobre três. Na infância, a criatura, como a planta, conserva-se rasteira, brota, pulula,
      mas
      conchega-se mais ao solo de que recebe toda a nutrição; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época da
      expansão, a criatura se lança para o espaço, exalta-se; é a árvore que hasteia e procura as nuvens; a planta pede ao céu
      os
      orvalhos e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se geram as flores, que nós chamamos paixões.
      Na
      velhice, o homem se inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, depois de revoar no espaço,
      deposita-se outra vez no chão. Então o velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé e calça esse coturno da mais
      triste das tragédias humanas, a decrepitude.
      Horácio observou de novo atentamente o objeto que tinha entre as mãos.
      -- A menina de quinze anos já não é a corça de quatro patas; não está mais na alvorada da vida, na puerícia; também
      ainda
      não chegou ao meio-dia do qual aproxima-se. Contudo, seu andar conserva ainda aquela atração para a terra; é pesado;
      calca o chão com força; tem o quer que seja de sacudido, que revela os impulsos da alma para desprender-se do pó e
      elevar-se; assemelha a singradura do batel, que ora se levanta, ora se submerge. Se esta botina fosse de uma menina,
      aqui
      estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente triturada nas extremidades, estaria
      estragada;
      o salto cambado. É uma observação que todo sapateiro confirmaria: o menino gasta o calçado pela sola, o homem pelo
      couro; a razão, o sapateiro a ignora, mas o filósofo a conhece: o menino é o inseto que rasteja, a larva; o homem é o
      inseto
      que voa, o besouro; aquele anda com o ventre, este com a asa.
      Horácio sorriu.
      -- Esta botina é de moça; e moça em todo o viço da juventude: a sola apenas roçada junto à ponta, o salto quase intato,
      não
      estão descrevendo com a maior eloqüência a sutileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil,
      que
      manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a Vênus deste olimpo em que vivemos, a mulher. Só quando toda seiva
      se
      precipita para o coração, quando germinam os botões que mais tarde abrirão em flor, só nesse momento de assunção é
      que a
      mulher tem este andar sublime e augusto. É o andar do passarinho que, roçando a relva, sente o impulso das asas; é o
      andar
      do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do anjo que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao
      céu; e é, finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os eflúvios do amor, do amor, único ambiente do coração!
      Nisto o moço descobriu na fivela do laço da botina alguma coisa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se à luz, viu as
      voltas
      de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de leão da moda. Com alguma paciência
      retirou
      um longo cabelo castanho e muito crespo.
      -- Outra prova de que aliás não carecia! Este cabelo é de mulher; não há menina que possa ter. Quatro palmos, além do
      que
      se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabelo castanho e crespo,
      duas
      coisas lindas sem dúvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de corvo. Esse negrume
      dá à
      mulher o quer que seja de satânico: lembra que ela também gerou se da terra; não é anjo somente; não é somente filha
      do céu.
      Eu não posso suportar a mulher-serafim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
      Horácio voltou a botina.
      -- Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma cor insípida de cabelo! Que me importa isto? Tenho alguma
      coisa
      com seu cabelo? O que amo nela é o pé: este pé silfo, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me
      enlouquece!...
      Horácio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas tímida e
      respeitosamente. Não era essa a imagem do pé sedutor, que ele adorava como um ídolo?
      -- Mas onde encontrá-lo? como reconhecê-lo? exclamou dolorosamente Horácio, sentindo a realidade da situação.
      Nenhum indício que lhe revelasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os
      traços
      de sua passagem A lembrança vaga de libré de um lacaio era o único vestígio que restava, mas com este dificilmente
      poderia
      descobrir o objeto de sua adoração Há tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca
      mais
      encontrasse aquele que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse
      -- Desgraçado! dizia o leão. Quase nem o olhaste; mas podias tu adivinhar, Horácio, que tesouro deixara cair aquele
      bruto?
      O mancebo inclinara ao peito a bela cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o
      leão
      mais querido das belezas fluminenses, o Átila do Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor
      De repente ergueu-se dum ímpeto:
      -- Hei de possuí-lo!... exclamou ele com o tom com que Alexandre se prometeu o império da Ásia.